Ela sempre dizia: "Uma rosa para deixar o seu dia mais bucólico. Um livro para a sua alma impulsiva serenar. E palavras incompreensíveis minhas, ditas ao pé do teu ouvido,para lembrar que sempre estarei aqui, em nossa cama, pronta a ser desvendada a cada toque de tua Língua..."
A cama está desarrumada, lençóis com doce aroma de menina do campo, me entorpecem e fazem lembrar que um dia a porta de nosso apartamento terá de se abrir, terei de enfrentar o mundo. Sem ela.
Ahhh... O dia em que a vi pela primeira vez, usava um sinuoso vestido preto, impávido, ela e o vestido arrasaram a minha sanidade e atiçaram minha libido. Apertei o passo, não poderia perdê-la de vista, cheguei bem perto, estava em seu encalço e pela primeira vez senti o cheiro de menina do campo, vi as sardas de suas costas que faziam o desenho intrigante de caminho calmo, queria a ter ali, agarrar seus braços, deita-la no asfalto, pedir que o Sol abaixasse sua luz para que pudesse enfim, enxergar a alma de minha menina do campo, através de seus olhos castanhos puxados.
De alguns meses para cá, ela havia mudado, o olhar introspectivo era sua resposta à tudo. Pedi, chorei, implorei, silenciei. Mas a vida seguiu. Esperava por dias melhores, as temporadas de outonos infindáveis...
Para minha surpresa o Sol abaixou sua luz, a garoa se formou, e então minha visão, que outrora era dominada por aquelas sardas instigantes, foi dominada por sua face, seu sorpo. Ela me olhava! Ela me encarava! Ela me enamorava ... Sem palavras, tomada por uma timidez sem precedentes, perguntei:
- Você quer ser minha, à minha maneira, todinha minha e de mais ninguém? Para que nos dia de chuva, tua pele seja meu único canto acolhedor, para que nos dia de febre castigue tua mente e teu sexo, sem descanso. E mais importante, nas temporadas de outonos infindáveis, possamos ser duas crianças, deitadas na folhagem marrom , desprotegidas ao sereno, trocando beijos inocentes de borboletas.
Oh Deus! Não sei de onde fui tirar forças para falar isso, mas falei. E logo me veio sua resposta:
-
Nada saiu de sua boca. Exceto sua língua voraz e molhada. Ali em meio a multidão ruborizada e mal amada, ela me beijou, me absorveu, me apresentou o universo e me levou à presença de deus, a minha deusa menina do campo.
A Wodka está no fim. Os olhos estão fundos, encobertos por uma neblina invisível, suas cartas são lidas exaustivamente, veemente, insandecidamente, para os amantes, os inimigos, marginais e cupidos ouvirem e se regurgitarem. Sofro.
Seria um sacrilégio escrever o que se passou entre nós desde daquele momento, em que ela decidiu ser minha. Isso é algo indecifrável, segredos imaculados, algo que só merece ser vivido em minha mente e na dela, um amor marcado na carne nossa, e fadado ao esquecimento na mente de quem me lê agora.
Avanço-me ao fim, o dia da despedida, a não anunciada, vivida em nossa cama, deleitada em nossa última comunhão. O sexo. Os nossos corpos fundidos na dança louca dos viventes. Tinha seus seios em minhas mãos, rosados, fabricados para caberem nas palmas de minhas mãos, macios.
O gosto doce de nosso pecado era compartilhado, reverenciado, dois anjos unidos. Éramos antes de tudo, amantes.
O que aconteceu dela? Não sei. A noite se foi e ela seguiu seu rastro.
Abraços

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